Caetano Veloso há algum tempo criou um blog, o Obra em Progresso. Quem acompanhou o projeto desde o começo sabia do seu fim: um novo disco. E Caetano escreveu. Escreveu sobre música, política, economia, cultura, São Paulo… Rio. O blog não era um mero espaço virtual onde normalmente escritores, músicos, artistas emergentes ou adolescentes rebeldes vomitam suas pecularidades egocêntricas para todo mundo – ou ninguém – ler. Obra em Progresso tinha um fim. E, como toda obra (exceto algumas do Governo, claro), chegou ao fim.
Durante todo o período de existência do blog, Caetano recebeu centenas, milhares de comentários. Aliás, todos os seus posts podem ter comentários contabilizados em três dígitos. E a troca de experiências, os debates intermináveis, as comparações massantes sobre Rio e SP, fez com que o novo disco fosse baseado na cooperação dos leitores. Muito do Caetano escritor de blog é possível ouvir no disco. O quê auto-crítico, confessional, está presente também nas palavras cantadas e não tão-somente nas escritas.
O disco não é, porém, uma prolongação do blog. É a convergência dele. O tempo de existência da página na internet não resultou apenas em um novo CD: ele se tornou o disco. A pluraridade de estilos literários explorados por Caetano na Obra pode ser traduzida no mix de gêneros e ritmos que o zii zie incorporou.
No entanto, a mídia, na sua tradicional cobertura do lançamento do projeto, exclui quase que totalmente a utilidade do blog no desenvolvimento do disco, tratando-o como um artifício usado por Caetano para nortear o desenrolar de todo o trabalho. Errado. O blog é a música de zii e zie. E é por isso que quando o CD foi lançado o blog teve sua última postagem didática, explicativa, para os ‘críticos’ dos jornais lerem e escreverem suas resenhas. Porém, só quem acompanhou o projeto desde o início (e isso inclui a leitura dos comentários dos leitores) está apto a discursar sobre a amplitude da obra de Caetano.
Há, ainda as comparações com as demais obras do artista. É inevitável. Enquanto Cê era lienar, consiso, plano, zii e zie caminha por vários gêneros, segundo o cantor baiano, que a música brasileira incorporou ao longo de tantos anos. Do rock ao samba.
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‘zii e zie’ significa “tios e tias” em italiano. Segundo Caetano, todo somos tios e tias nas ruas do Rio de Janeiro diante dos garotos que fazem malabarismo no sinal. No entanto, no poético e sonoro-latino italiano, o título se aproxima de São Paulo, que era seu desejo por fim.
Caetano, homem, artista fez o que todos esperavam: cantou. Caetano, homem, corajoso, fez o que ninguém entendeu: criou um blog e o fez música.
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