Ele estava sentado logo à minha frente, na carteira de escola cheirando a tinta fresca. Era óbvio que eram novas. Seus olhos atentos buscavam algo familiar, mas é claro que se sentia encurralado pelos olhares dos que estavam à sua volta. Transpirava ansiedade. A tinta sobre o seu corpo e seus cabelos denunciavam que ele havia sido vítima de um trote universitário. Havia um misto de excitação e preocupação no olhar vacilante, mãos trêmulas e pernas inquietas.

Uma senhora estava ao seu lado. Provavelmente sua mãe. Sentada na ponta da cadeira, como quem não quer ocupar o assento todo para não tomar parte naquela situação constrangedora, segurava com firmeza uma bolsa surrada nas mãos e olhava fixamente para a mulher loira sentada de frente para ela. Os cabelos presos como coque no alto da cabeça e o olhar cansado deixavam claro que a noite não fora das melhores.

A simpática assistente social tentava transparecer tranqüilidade, mas ela sabia que a situação daquelas pessoas não era das mais fáceis de se resolver. Histórias mal contadas se sucederam, todas num tom de pesar, vergonha e humilhação. Enquanto as lamentações eram espalhadas pelo ar, abaixei a cabeça e apenas ouvi.

Ao final, descobri que o menino à minha frente era mineiro, “quase baiano”. Ele e a mãe vieram de Minas para São Paulo. Eram vitoriosos: o garoto por ter sido aprovado numa Federal; a mãe, por tê-lo acompanhado e, certamente, incentivado-o. Mas ele não tinha onde ficar, tampouco dinheiro para pagar um apartamento próprio como todo mundo. Ganharia um colchão emprestado e seria mandado, provisoriamente, para uma república de veteranos mantida pela Universidade. A situação, segundo a própria assistente social, seria precária e ele, primeiroanista, sofreria represálias e – mais – humilhações dos demais garotos. É o preço que se paga por ser pobre nesse país.

Dizem que o crime não compensa, mas quando olho para presidiários sendo melhor tratados do que estudantes honestos, penso que este país possui sérios problemas de prioridades. Uma pena.

Tudo muda ao teu redor, o que era certo, sólido
dissolve, desaba, dilui, desmancha no ar
no moinho, giram as pás, e o tempo vira pó
de grão em grão, por entre os dedos, tudo parece escapar

(Engenheiros do Hawaii)

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