Arquivos para categoria: Comunista, comunista!

Não sei porque tanto circo em torno dessa história do Estadão ter declarado apoio ao José Serra. A imprensa americana faz isso há décadas, por que aqui isso seria impossível ou –arrisco– impensável? Declarar de que lado está numa disputa eleitoral mostra maturidade, coragem e respeito ao (e)leitor. Ou vocês acham que a Folha, Veja, Piauí e Carta Capital são menos parciais só porque não escreveram formalmente de que lado estão num editorial de domingo?

O fato é que –ênfase dessa parte– toda a imprensa se ofendeu com mais uma declaração estusiasmada do nosso presidente, mas o que se viu foram mobilizações isoladas e sem grande impacto. O único veículo que se posicionou declaradamente contrário à posição ditadorial do senhor Luis Inácio Lula Não-Falem-Mal-De-Mim da Silva foi o ‘Estado’. Uma atitude que deveria, sim, ser copiada pelos grandes jornais para pôr fim a essas enganação de imparcialidade jornalística.

É um direito do eleitor saber como o jornal que ele lê pensa e se comporta ante fatos de máxima importância como a democracia e a política deste país.

Tá todo mundo falando nos ‘róits’ do petróleo. Na TV — muito mais nos canais da Globosat do que nas outras emissoras — só se fala no tal do petróleo a centenas de quilômetros da costa brasileira, no fundo do oceano, embaixo de uma camada imensa de sal, que um dia vai trazer paz e prosperidade a este país de esperançosos miseráveis.
Dizem que isso vai render muita grana. Os jornais fazem estimativas e infográficos ultra-coloridos mostrando quanto dinheiro cada estado e cidade tupiniquim vai receber. Mas são apenas projeções. Ninguém ao certo sabe como (e quando) a Petrobras vai conseguir extrair o ouro negro que se esconde infortunadamente num lugar onde ninguém jamais conseguiu tirar nada.
Mas é claro que isso já é motivo pra uma boa briga. O Rio de Janeiro, ex-capital do Brasil, ex-capital cultural do Brasil, ex-capital econômica do Brasil, ex-muitas-outras-coisas e hoje império do governador Sérgio Cabral (e do crime organizado), se julga no direito de ter uma parcela maior na arrecadação dos royalties. A justificativa é que eles precisam custear Olimpíadas e Copa do Mundo, mesmo que já estejam recebendo uma bolada (contada na casa de centenas de milhões de reais) do Governo Federal.
Então vemos emergir na massa um fenômeno tipicamente brasileiro: uma revolta coletiva sem fundamento e sem qualquer tipo de esclarecimento ou justificativa. Funkeiros, mulheres-fruta, artistas globais, cantores, ex-BBBs, jogadores de futebol e pseudo-celebridades de internet se juntam ao coro dos milhares de assalariados cariocas gritando “a-ha, u-hu, o petróleo é nosso!”. E o que torna o discurso da Xuxa e companhia limitada estúpido e imbecil é justamente a pontualidade. Por que só mediante essa suposta barbárie a classe artística resolveu se manifestar? Não me lembro de ter visto nenhum jogador de futebol ou cantor (com exceção do Tico Santa Cruz), que poderiam usar do seu poder de influência, mobilizando nenhum protesto contra o Sarney ou Arruda, por exemplo. Por que só agora o ufanismo carioca aflorou?
A distribuição igualitária dos royalties entre todos os 26 estados-membro desta nação parece cada vez mais utópica e deturpada graças ao apelo coletivo fluminense. Ou seja, o caboclo que berra, chora, vibra a cada pseudo-vitória do Rio no Congressso é o mesmo que vai assistir às Olimpíadas em uma TV de 20 polegadas com chuviscos, na laje de um barraco, ao som de um bom samba enquanto o churrasquinho de gato estala na grelha.
Mas quem liga? É nóis nos róits.
Por Glória Kalil
Nem um chefe de Estado, nem o Papa, nem a família Obama inteira causariam mais alvoroço em uma cidade do que a presenças das cantoras Beyoncé, Alicia Keys e Madonna no Rio de Janeiro. Aliás, para as cidades, porque São Paulo também não ficou imune a essa confusão, uma vez que Madonna veio passar algumas horas por aqui para uma visitinha ao governador. Isso depois de mandar seus seguranças particulares virem antes até o palácio do governo para verificar se o local era suficientemente protegido para recebê-la. Pode uma coisa dessas? E o Palácio se submete docilmente a essa inversão de posições. Ora, façam-me o favor.
As três moças em questão são artistas famosas, têm fãs pelo mundo todo, faturam horrores, mas nada disso justifica essa histeria em volta delas. Especialmente por parte dos empresários, banqueiros ou por parte de autoridades. Governadores imploram atenção delas (e da mídia), mandam helicópteros buscá-las para tirarem fotos ao seu lado, mandam fechar ruas para que elas possam passear, convidam para suas casas, palácios, camarotes como se tratassem de seres de outro planeta que viessem tirar o país de algum buraco, de uma guerra ou de alguma calamidade.
Que o presidente do Haiti receba Angelina Jolie (que contribuiu com um milhão de dólares do seu bolso para a recuperação do país), ou que venha a fazer a mesma coisa com Gisele Bündchen (que doou 1 milhão e meio), ainda se entende. Mas se é só por que vieram para fazer um show, onde faturam o que querem e o que pedem, não vejo nenhum sentido. Acho até um pouco humilhante, não acham não?

Ontem estava conversando com uma amiga que vive em Quebec, no Canadá, e estava lhe contando as últimas novidades sobre minha vida mediana e sobre as peripécias dos nossos políticos cá por essas bandas tupiniquins. Confesso que, enquanto explicava o esquema de uso de passagens aéreas pelos parlamentares e suas respectivas famílias, fui me envergonhando.

Cheguei ao ponto de me pegar minimizando conscientemente as merdas que acontecem na vida política desse país, como costumamos fazer quando conversamos com qualquer gringo. Senti vergonha. Enquanto conversávamos, via skype, a TV estava ligada no noticiário que vomitava mais umescândalo no nosso parlamento: as almadiçoadas-sejam-para-todo-o-sempre passagens aéreas. Quanto mais eu falava, mais raiva sentia dos políticos, mais vergonha sentia de ser brasileiro. Com o tempo, fui me sentindo injustiçado, lesado, corrompido, roupado por um bando de políticos desonestos, com seus discursos jocosos que me dão ânsia de vômito.

O Brasil é um país de controvérsias dentro de controvérsias. O povo caloroso, amigo, bola pra frente, de bem com a vida, na verdade é um povo burroignorante, que se esconde por trás de uma máscara de cordialidade pra omitir suas misérias, suas fraquezas, sua incapacidade de tomar uma iniciativa pró-ativa em favor dele mesmo! Assistimos às barbaridades na TV e terminamos com um sonoro e imbecil “Ê Brasilzão que não tem jeito”.

Somos uns otários. E eu me incluo na lista de imbecis-mór da nação. Somos feitos de idiotas o tempo todo. Os malditos políticos do antro da corrupção nacional chamado Brasília, riem da nossa cara, enquanto pagamos nossos malditos impostos. E que impostos! E pra quê? Pra sustentarmos o parlamento mais caro do mundo com suas infinitas regalias!

E quer saber: esse país é uma merda e seus políticos são as escória da humanidade. Aproveito a oportunidade e assumo publicamente meu mais profundo sentimento de vergonha.