Arquivos para categoria: Experimentações literárias

Vivo perdendo as coisas. Outro dia mesmo perdi a carteira, o celular e as esperanças. A carteira e o celular eu achei.

Anúncios

Odeio o jeito que você fala comigo;
odeio seu humor,
suas piadas;
odeio suas roupas
e como você corta o cabelo;
odeio seu perfume;
odeio sua beleza;
odeio o toque do seu celular;
odeio sua voz
e as suas músicas.
Odeio como você me olha —
com esse olhar arrogante;
odeio quando te pergunto
e você não responde;
odeio quando não pensa em mim,
ou quando penso demais em você;
odeio o jeito que você termina uma conversa ao telefone,
ou quando não me liga;
odeio ter que te esperar
eternamente, às vezes.
Odeio quando não me quer,
ou quando te quero demais;
odeio a tua felicidade,
por saber que não se estende a mim —
ou não me inclui,
ou não me cabe.
Odeio saber que a sua vida continua
separada da minha;
odeio ter que te perder,
e te ganhar a cada dia;
odeio chorar por você,
e saber que você não chora por mim.
Mas o que eu mais odeio
é não poder te odiar.

Vivo perdendo as coisas. Perco as horas. Perco ônibus. Perco o celular. Perco a carteira. Perco peso. Perco os óculos. Perco o porta-lápis do burro do Shrek. Perco o juízo. Perco a vontade de escrever. Perco dinheiro do Banco Imobiliário. Perco amigos. Perco a agenda. Perco aspirinas. Perco tempo. Perco post-its. Perco a razão. Perco moedas. Perco aquela caneta superchique que ganhei de aniversário. Perco programas de TV. Perco entradas de teatro. Perco cabelo. Perco uma idéia revolucionária. Perco a paciência. Perco a palheta. Perco cartas de baralho. Perco dados de jogo de tabuleiro.

Daqui uns dias me perco e não me acho mais.

Em época de aniversário fico meio besta. Penso demais sobre o que é importante e tendo descartar o que não é. Inclusive pessoas. Os desimportantes seguem para um baú guardado no fundo de uma cômoda velha. E lá vão ficar por um bom tempo, esquecidas. Talvez um dia eu reabra o móvel em busca de lembranças. E tudo vai estar como deixei: coisas e pessoas que fizeram mal. Exatamente no lugar onde deveriam estar: escondidas da luz e longe do alcance da vista. O ditado é válido: o que os olhos não vêem o coração não sente.

A crônica abaixo foi publicada três dias antes do meu aniversário de 23 anos, no ano passado, em 22 de maio. Este ano não tive tempo/inspiração pra criar um texto novo. Então o republico sem medo de ser feliz. Enjoy.

Crônicas de Klaus – Retalhos

“A vida passa rápido” – pensou Klaus.

Era assim que as coisas vinham acontecendo. Quando se deu conta, já era (de novo) seu aniversário. Quantos anos tinha? Que importa, ou melhor, a quem importa? “Uma, duas, três…” – parou. Pensou se realmente deveria contar quantas pessoas se importam com o seu aniversário, ou se seria melhor ter como única certeza a dúvida ignorante que nos afasta de todo e qualquer mal. Quanto menos se sabe, menos se sofre. Essa era sua filosofia de vida de um tempo pra cá. Não era definitiva, claro, e logo ele arranjaria outra filosofia de vida que se encaixasse melhor nos seus anseios e aspirações.

O ar estava frio, o sol pálido e as cores quase todas cinzas. Vantagens de se fazer aniversário em época de frio. Abraçar as pessoas no inverno é bem mais gostoso e demorado. A questão é: quantas pessoas ele abraçaria nesse aniversário. Era uma dúvida constante, daquelas bem inúteis e estúpidas, com quando você pára e pensa quantas pessoas iriam ao seu velório caso morresse hoje. Ele sempre fazia isso – contar pessoas, não morrer.

De uns tempos pra cá tinha se afastado de seus amigos. Tinha aprendido a curtir programas cada vez mais solitários, como ir – sozinho – ao cinema, teatro, performances musicais de artistas bêbados decadentes, caminhar num parque, beber num boteco escuro com cheiro de mofo. Percebeu também que passava cada vez mais tempo olhando pra uma tela e batendo agilmente a ponta dos dedos em botões à sua frente. Nove, dez horas por dia. “O que há de tão interessante nessa caixa que acende?” – ele se perguntava constantemente.

Ele era de gêmeos. “Signo de personalidade forte”, diziam. Mas ele sabia que não era verdade. Sabia, sim, que não acreditava nessas besteiras de astrologia e do horóscopo nos jornais, que são tão inúteis quanto os programas de TV dominicais. No entanto, como todo mundo, ele se identificava com o que seu signo dizia a seu respeito. Leu num jornal: afabilidade. Facilidade para se expressar. Sensibilidade, graça, amabilidade, intuição e estudiosa. Adoram as mudanças e a variedade. Ocupam-se, portanto, de várias coisas ao mesmo tempo. Aparentam estar sempre ocupadas. Habilidosas como artesãos.

“Grande coisa”, pensou. Lendo assim sua vida parecia bem mais excitante do que era de fato. Tinha dúvidas se todo mundo de gêmeos se identificava com o que algum jornalista desocupado metido a oráculo escrevia every fucking day no jornal.

No signo de Gêmeos encontramos excelentes jornalistas, escritores e até atores, que se metamorfoseiam com facilidade em diferentes personagens. O lema de Gêmeos deveria ser “penso então eu sou”, já que o seu intelecto privilegiado o move em todas as direções. Ele adora descobrir coisas novas, inventar e aprender, sempre de forma brilhante e mesmo divertida. Sim porque ele é como uma ‘criança em idade escolar’, sempre pronta a aprender coisas novas, neste admirável mundo novo cheio de atrações!

Parou de ler. Embora com ego inchado e com grandes acertos a respeito das profissões, aquilo tudo ainda era uma grande besteira. Resolveu parar de pensar e foi fazer um chá. Alecrim, absinto, boldo, manjericão, camomila. Nunca gostou de chá, parecia muito mais com uma água suja do que com uma bebida decente. Colocou água para esquentar mesmo assim e se sentou à mesa, esperando.

Klaus olhava fixamente para a toalha à sua frente, debaixo das suas mãos. Feita de retalhos, tinha comprado em uma feira de artesanatos no centro da cidade, de uma senhora idosa de aparência muito debilitada. Comprou por pena e não por necessidade, mesmo sabendo que as pessoas (em geral) não gostam que sintam pena delas. Era predominantemente vermelha e branca, com alguns detalhes em azul anil, roxo e, em menor quantidade, laranja.

Começou a devanear. Falava em voz alta, mesmo estando sozinho àquela hora da noite, sentado numa cadeira em uma cozinha fria e úmida num maio de um ano qualquer. Que importa? A quem importa? Não importava. Sua mente agora estava em outro lugar, ele utilizava palavras grandes como “nunca”, “sempre”, “jamais”, “tudo”. Falava sozinho de sentimentos, de amores que vieram e se foram. De pessoas que vieram e se foram. Até de doenças que vieram e se foram.

Pensou na sua família, nos seus amigos, nos seus fracassos, nas suas misérias e – bem pouco – nas suas conquistas, que pareciam ridiculamente pequenas ao lado de todo o resto. Percebeu que sua vida era feita de retalhos, com aos da toalha da mesa. Nada além disso. Uma vida em pedaços, separada por acontecimentos que se convergiam num todo. E não havia como escapar, ele apenas colecionava retalhos de sentimentos que formavam uma grande toalha

O chá estava pronto.