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Ontem assisti Onde Vivem os Monstros (Where the Wild Things Are) e gostaria de vomitar alguns comentários sobre. Nota: não sou crítico de cinema, tampouco literário. O que descrevo a seguir são as minhas impressões pessoais sobre a adptação ao cinema do clássico de Maurice Sendak.

Vou começar pela trilha sonora. Composta quase exclusivamente por Karen O And The Kids, do Yeah Yeah Yeahs, as músicas soam infantis e ingênuas. As vozes das crianças dão um tom todo particular à composição musical, que abusa da percussão bem definida, mas não da maneira constante e linear de KT Tunstall, por exemplo, mas com intervalos que soam quase como improviso.

Segundo ponto: se eu precisasse definir um tema único para o filme, apostaria de olhos fechados no amor. Sei que isso soa piegas, cafona e — arisco — até clichê, mas não é. A busca exaustiva pelo auto-conhecimento por parte do menino Max norteiam toda a obra, que tem um quê todo cult, fora dos padrões hollywoodianos (tá, nem tanto), mas que transmitem através da fotografia impecável e do exercício de metáforas sobre o crescimento (e todos os medos envolvidos) uma experiência incrível pra quem assiste.

O universo imaginário criado pelo menino, com cada monstro representando um sentimento, é envolto em uma atmosfera dura, sombria e sem cores. Talvez seja essa a melhor ilustração do mundo estranho e desconhecido que todos passamos um dia, quando deixamos o conforto do nosso lar em busca de algo que não sabíamos o que era. Uma eterna e épica busca por algo ou alguém que nos dê sentido, um rei que nos proteja e diga o que fazer, tirando das nossas costas as responsabilidades pelos nossos erros e fracassos, alguém pra culpar, por fim.

Onde Vivem os Monstros é um filme lindo, tocante, inteligente e profundo, que já figura entre os meus preferidos.

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

(Vinícius de Moraes)

Pode o amor com sua falta
envolver-me em amarguras –
pode uma neurose obscura
cutucar-me, na psique, algo
que (e quem sabe?) não descubro –
pode haver doenças, desastres,
desquites, dívidas, desavenças –
pode ser que tudo mude
ou permaneça a mesma sem-graça
cotidiana existência estapafúrdia –
pode chover canivetes
ou estrôncio, que é mais chique –
pode haver quem não tenha tiques,
faça, impávido, bhakti-yoga:
o fato é que não me encanto
nem me espanto nem corro às léguas.
Fico quieto no meu canto.

E vão à pura merda ids e egos.

(Antônio Brasileiro, via Baú da Princesa)