Arquivos para categoria: Ninguém perguntou, mas…

Abaixo estão os vídeos da minha participação no MTV Debate do dia 7 de setembro, que teve como tema O jeitinho brasileiro é um atraso para o Brasil?

Também participaram do programa mediado pelo Lobão, Cacá, vocalista da banda Copacabana Club; Cláudio de Oliveira, jornalista da Folha; Lola, professora de literatura em língua inglesa da Universidade Federal do Ceará; Rodrigo Mendes, responsável por uma pesquisa sobre “Brasilidades”; e Bruna Caram, cantora de MPB.

Muito se fala sobre Responsabilidade Social Empresarial. Governos, meios de comunicação e ativistas adquiriram, ao longo das últimas décadas, o hábito de cobrar de empresas a responsabilidade pelas conseqüências geradas a partir de suas atividades, sejam elas de caráter econômico, ambiental ou social.

Porém, devemos enxergar a RSE de maneira diferente ao atual modelo-padrão desenvolvido por institutos peritos no assunto, e questionar a eficiência do famoso título dados àquelas empresas que se destacam em questões sociais, o velho jargão de “empresa socialmente responsável”.

O fato é que as estratégias de gestão empresarial freqüentemente se contrapõem às estratégias de uma área específica da empresa voltada diretamente às questões socioambientais. Isso acontece exatamente porque as organizações ainda não têm um parâmetro para seguir quando se trata de RSE; e o que vemos é um crescimento da já ampla literatura sobre tais assuntos, institutos sem fins lucrativos e acadêmicos sempre prontos a colaborar com empresas preocupadas (por pressão externa, na maioria das vezes) com a comunidade. Mas, na prática, tudo de se limita a ações pontuais e sazonais, e não raramente, pura filantropia.

O problema-chave que as empresas enfrentam é geralmente de caráter tático, visto que a RSE é tida em muitas empresas apenas como parte do marketing e da publicidade envolvidos, e não como fator integrante da sua estratégia empresarial. Prova disso são os relatórios anuais das ações desenvolvidas pelas organizações, geralmente desconexos, pontuais, com expressivas considerações aos valores investidos, mas sem um levantamento dos benefícios em longo prazo dessas atividades, o que acaba causando dúvidas quanto às verdadeiras intenções da empresa que tenta demonstrar sua sensibilidade social, mas sem se preocupar com o verdadeiro efeito deste investimento.

Portanto, pode-se afirmar que a RSE ainda tem muito a se desenvolver e que hoje paira entre a filantropia e ações que agem em pontos de atrito entre a sociedade e empresas privadas, e, claro, muito longe de se chegar a um modelo sustentável ideal.

A TV Cultura exibe amanhã à noite o filme A Estrela Perdida, que conta a história imigração norte-americana para o Brasil no período pós-guerra civil, bem como os núcleos que se instalaram por aqui, principalmente o de Santa Bárbara d’Oeste (SP), que abriga a maior colônia americana do mundo.

Tentei copiar o embed do vídeo pra cá, mas não deu, então você consegue ver o vídeo aqui.

Agradecimentos a Yohana pelo achado : )

Fiz uma canção
Pra declarar minha saudade
Do tempo em que a alegria dominou meu coração
Eu era bem feliz
Mas desabou a tempestade
Levando um lindo sonho pelas águas da desilusão
Eu fiz uma canção
Pra declarar minha saudade
Usei sinceridade que
Me dá certeza que você
Quando ouvir o meu cantar,
Vai se lembrar que deixou
Do lado esquerdo do meu peito essa dor
Que tá difícil de curar
Tenho certeza que você
De onde ouvir
Meu soluçar em forma de uma canção
Vai se lembrar que nosso amor é tão bom
E que pra sempre vai durar.

(Jr. Dom / Arlindo Cruz)

Chego espantando as moscas do blog pra contar no melhor estilo querido-diário como foi o meu dia hoje.

Custei a levantar da cama às 8 da manhã de um domingo gélido. As janelas estavam embaçadas e não se via nada do lado de fora — a neblina era densa e molhada. No caminho do ponto de encontro do grupo, a sensação de que “devia ter pego mais uma blusa” era inevitável.

Tudo começou no antigo prédio da Usina Santa Bárbara, outrora motor de desenvolvimento econômico da cidade, e, hoje, palco de eventos culturais abertos ao público.

Bom, chegamos no horário marcado, 9h, para separar as equipes e receber as orientações sobre como seria a caminhada de duas horas dentro da mata fechada. Cada grupo de 5 pessoas recebeu um mapa, identificação, e as instruções: a cada meia hora de caminhada, seguindo a rota, encontraríamos um Posto de Controle (PC), onde receberíamos instruções de como continuar e nosso mapa seria carimbado com o horário que passamos por cada um deles. No final, quem cumprisse melhor o tempo pré-estabelecido, venceria a prova.

No mapa, haviam ilustrações de lagos, riachos, quedas d’água, descidas, subidas e alguns pontos de referência. Se alguém se perdesse teria que morar pra sempre no meio do mato, encontrar uma família de lobos disposta a te adotar e um dia virar tema de filme. Por isso, como ninguém quer bancar uma Tarzan, menino-lobo ou qualquer outro personagem do gênero, seguimos à risca as orientações, inclusive com a contagem de passos exata, presente em alguns pontos.

O vídeo abaixo foi de quando encontramos o primeiro PC. Todo mundo ainda limpo e não tão cansado. Mal sabíamos o que nos esperava.

Nessa etapa, por causa da corrida, já havíamos nos livrados das blusas, embora o pessoal do PC ainda estivesse com muita roupa, luvas, cachecóis… Seguimos.

Passamos por riachos, atolamos o pé até as canelas no meio da lama, passamos por baixo da Rodovia dos Bandeirantes, por uma tubulação onde corre água da chuva (medo!). Subimos e descemos encostas, barrancos, ora com ajuda de cordas, ora sem nada pra se segurar além dos cipós e raízes das árvores.

Na última etapa, depois de quase duas horas andando no meio de um pedacinho da Mata Atlântica, nos perdemos. Olhamos o mapa, voltamos até a última etapa e seguimos pelo caminho certo, até que, por um descuido besta, a Viviane, membro da nossa equipe, caiu e torceu o tornozelo. Ahhhhh!

Sabe aquela sensação de perder a Copa do Mundo? Por um minuto achei que havia sido uma torção boba, mas o pé dela começou a inchar. Pegamos uma garrafa com água congelada, rasgamos no dente (mentira, usamos uma chave) e colocamos o gelo no lugar que continuava inchando. Demos o sinal de ajuda e em alguns minutos, dois guarda-vidas chegaram com material pra fazer um curativo rápido.

Nisso, nós que estávamos em segundo lugar, fomos ultrapassados por todas as equipes retardatárias. Estávamos no meio de um cafezal, debaixo de um sol desgraçado que já havia secado toda a neblina e agora torrava nossos cérebros. Depois de intermináveis 30 minutos (que pareceram 30 décadas), o resto da equipe chegou com maca e mais materiais de primeiros socorros.

Depois dessa, não restava muita coisa a fazer. Faltava pouco para chegar à margem da Bandeirantes. Lá, um carro já esperava pra levar a cidadã ao hospital. Mesmo eu tendo insistido muito, não chamaram a ambulância. Não que precisasse, mas seria bem mais cinematográfico e tal. Enfim, não se pode ganhar todas.

Pra não ter que voltar por baixo da pista, pela tubulação de água, por onde viemos anteriormente, o jeito foi cortar caminho por ali mesmo. Deu um pouco de medo de morrer ao atravessar aquela pista onde as Ferraris passam a 200km/h, mas deu tudo certo.

Foi assim. Outro desse só no ano que vem. Não vejo a hora!

O negócio é o seguinte: essa música é o toque do meu celular, a #1 da playlist do MP4, está programada no repeat do rádio do carro e eu não sei mais o que fazer. Grato.

Ele estava sentado logo à minha frente, na carteira de escola cheirando a tinta fresca. Era óbvio que eram novas. Seus olhos atentos buscavam algo familiar, mas é claro que se sentia encurralado pelos olhares dos que estavam à sua volta. Transpirava ansiedade. A tinta sobre o seu corpo e seus cabelos denunciavam que ele havia sido vítima de um trote universitário. Havia um misto de excitação e preocupação no olhar vacilante, mãos trêmulas e pernas inquietas.

Uma senhora estava ao seu lado. Provavelmente sua mãe. Sentada na ponta da cadeira, como quem não quer ocupar o assento todo para não tomar parte naquela situação constrangedora, segurava com firmeza uma bolsa surrada nas mãos e olhava fixamente para a mulher loira sentada de frente para ela. Os cabelos presos como coque no alto da cabeça e o olhar cansado deixavam claro que a noite não fora das melhores.

A simpática assistente social tentava transparecer tranqüilidade, mas ela sabia que a situação daquelas pessoas não era das mais fáceis de se resolver. Histórias mal contadas se sucederam, todas num tom de pesar, vergonha e humilhação. Enquanto as lamentações eram espalhadas pelo ar, abaixei a cabeça e apenas ouvi.

Ao final, descobri que o menino à minha frente era mineiro, “quase baiano”. Ele e a mãe vieram de Minas para São Paulo. Eram vitoriosos: o garoto por ter sido aprovado numa Federal; a mãe, por tê-lo acompanhado e, certamente, incentivado-o. Mas ele não tinha onde ficar, tampouco dinheiro para pagar um apartamento próprio como todo mundo. Ganharia um colchão emprestado e seria mandado, provisoriamente, para uma república de veteranos mantida pela Universidade. A situação, segundo a própria assistente social, seria precária e ele, primeiroanista, sofreria represálias e – mais – humilhações dos demais garotos. É o preço que se paga por ser pobre nesse país.

Dizem que o crime não compensa, mas quando olho para presidiários sendo melhor tratados do que estudantes honestos, penso que este país possui sérios problemas de prioridades. Uma pena.

Tudo muda ao teu redor, o que era certo, sólido
dissolve, desaba, dilui, desmancha no ar
no moinho, giram as pás, e o tempo vira pó
de grão em grão, por entre os dedos, tudo parece escapar

(Engenheiros do Hawaii)

Cheguei à locadora. Parei o carro a 45º numa das vagas. Desci. Gastei pouco mais do que vinte minutos pra devolver uns filmes, escolher outros, comprar sorvete e Coca-Cola. Aí vem aquele papo de caixa:
– Deu quinte e oitenta. Qual a forma de pagamento?
– Cartão.
– Débito ou crédito?
– Débito.
– Nota Fiscal Paulista?
– Por favor.
– Prontinho, obrigado.
– Eu que agradeço.
Depois da conversa padrão que sai tão automaticamente quanto dar a descarga do banheiro, saí equilibrando as coisas pra não derrubar nada, quando me deparo com um garoto, aparentemente com síndrome de down, esmurrando meu carro. “Ei”, gritei instintivamente, andando rápido na direção dele.
Ele estava vermelho, (me) xingando de palavrões que eu não ouvia desde os tempos de escola. Será que parei onde não devia? Mas é um estacionamento, pombas! Será que atropelei o gato dele? Matei um cachorro? Um papagaio? Olhei em volta do carro. Nada. Um amigo imaginário, talvez?
Dei umas espiadas ao redor, procurando o responsável, pai, mãe, qualquer um que pudesse acalmá-lo. Ele não parava de gritar. Não tinha ninguém. Impossível que o garoto estivesse ali sozinho. Estava.
“Que merda”, falei. O menino não tava afim de papo. Pedi licença, do tipo, “com licença você que já ofendeu até a quarta geração da minha família, será que posso entrar no carro?”.
Entrei. Dei marcha à ré e fui embora. Pelo retrovisor ainda deu pra ver alguns gestos nada simpáticos da parte dele.
Tenso.