Arquivos para categoria: Who cares?

Ando tão à flor da pele
Que qualquer beijo de novela me faz chorar
Ando tão à flor da pele
Que teu olhar flor na janela me faz morrer
Ando tão à flor da pele
Que meu desejo se confunde com a vontade de não ser
Ando tão à flor da pele
Que a minha pele tem o fogo do juízo final.

Zeca Baleiro

Vou caminhar e me deprimir. Eu tô louco pra ficar triste. Eu nunca posso — tem sempre alguém do meu lado que merece ficar triste mais do que eu. Agora que tá todo mundo bem, eu vou aproveitar e me deprimir. Mas vocês não se preocupem, é coisa de uma hora só, no máximo. Eu caminho pelo mato. Me deprimo. Aí deito deprimido, durmo deprimido e acordo morto de fome.

Do curta-metragem Estrada, com direção de Jorge Furtado.

-Você tem um cigarro?
-Estou tentando parar de fumar.
-Eu também, mas queria uma coisa nas mãos agora.
-Você tem uma coisa nas mãos agora.
-Eu?
-Eu.

(Caio Fernando Abreu)

Deitei a cabeça no travesseiro como tantas outras vezes fiz sem sequer notar ou perceber o ato. Devaneios invadiram a minha mente e levaram meu sono. Lutei, em vão. Estaria fadado a passar (mais) uma noite em claro, segurando um livro que não leio e um chá que não bebo. Odeio chá.
A janela não continha o frio e vibrava à vontade do vento. O silêncio era ensurdecedor, insuportável! Entrava pelos meus ouvidos alertas e confundiam meu cérebro que ansiava por um som reconhecível. Nada. Nada além do barulho dos pensamentos, que se amontoavam em ondas indo e vindo, num emaranhado confuso de sensações. O chá estava esfriando. Mas eu odeio chá!
Senti como se a cama desaparecesse. Caí num abismo imenso, quase sem fim. Sabia que poderia me machucar. Mas reconheci a queda. A dor da queda. Não era a primeira vez que caía. Lá no fundo, em pedaços, só esperava olhando para cima, para o breu. Tudo então se tornou familiar, ademais, já estivera lá muitas vezes.
O chá esfriou.