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Pode o amor com sua falta
envolver-me em amarguras –
pode uma neurose obscura
cutucar-me, na psique, algo
que (e quem sabe?) não descubro –
pode haver doenças, desastres,
desquites, dívidas, desavenças –
pode ser que tudo mude
ou permaneça a mesma sem-graça
cotidiana existência estapafúrdia –
pode chover canivetes
ou estrôncio, que é mais chique –
pode haver quem não tenha tiques,
faça, impávido, bhakti-yoga:
o fato é que não me encanto
nem me espanto nem corro às léguas.
Fico quieto no meu canto.

E vão à pura merda ids e egos.

(Antônio Brasileiro, via Baú da Princesa)

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Como já fazia tempo que eu não pegava sequer um livro pra ler — conte nos autos que por total descaso da minha parte –, essa semana resolvi parar de procrastinar e fui à luta. Comecei com a indicação do Daniel, Raízes do Brasil (Sérgio Buarque de Holanda). Livro ótimo, leitura densa, mas nem por isso não atrativa e interessante.

Depois passei para o meu prazer secreto: a série O Guia do Mochileiro das Galáxias. Pra quem não conhece a trilogia de quatro livros (que, por mero acaso, são cinco), a contra-capa do livro 2 explica: A série O Guia do Mochileiro das Galáxias começou no final dos anos 1970 como um programa de rádio, e o sucesso foi tanto que surgiram cinco livros, uma série de TV, video-games, quadrinhos, peças de teatro e um filme. Zombando da humanidade a cada página, Douglas Adams nos leva a refletir sobre a forma como conduzimos nossa vida e nossa política. Além de nos fazer dar boas gargalhadas, é claro.
O livro é repleto de significados e máximas que só fazem sentido para os leitores da série, vistos como retardados ou coisa que o valha devido ao seu comportamento, digamos, peculiar. Um exemplo disso é o fanatismo quase doentio pelo número 42, que segundo o livro, é a resposta para a pergunta fundamental sobre a vida, o universo e tudo mais. Outras máximas interessantes abordadas pelo livro são “Não entre em pânico” (Don’t panic), “Amor, evite se for possível”, “Resistir é inútil” e, claro, “Tudo o que você precisará quando o universo acabar é de uma toalha”.
Falando em toalha, o dia 25 de maio é celebrado como o Dia da Toalha (ou Towel Day), uma homenagem dos fãs ao autor da série, Douglas Adams. Segundo o livro, a toalha para os viajantes da galáxia é não só útil, mas obrigatória para as mais variadas e inimagináveis situações. Por isso, no dia 25 de maio, fãs do mundo todo carregam uma toalha durante o dia inteiro com eles. Alguns usam como uma capa, outros como um turbante, outros a prendem no vidro do carro… A galera até tem um álbum no Flickr pra mostrar como o mundo inteiro comemora a tão importante data.
Outra coisa bem legal nos livros é o robô andróide Marvin. Ele é o robô de bordo da espaçonave Coração de Ouro, e um dos protótipos da Companhia Cibernética Sírius projetados com a revolucionária tecnologia de Personalidade Humana Genuína (PHG). A PHG proporciona a esses protótipos as reações e emoções humanas mais variadas.
Marvin tem um “cérebro” do tamanho de um planeta, cujo QI é pelo menos 30 bilhões de vezes maior que o de um ser humano. Entretanto, as funções para a quais é designado são das mais banais (como abrir portas, escoltar visitantes e sentar a um canto de uma sala e ser ignorado por todos). Essas tarefas tão absurdamente simples para seu intelecto superior resultam no PHG do andróide uma profunda e prolongada depressão, além de um sentimento de completo desprezo pela vida.
A trilogia de cinco livros é composta pelos seguintes títulos: O Guia do Mochileiro das Galaxias, O Restaurante no Fim do Universo, A Vida, o Universo e Tudo Mais, Até mais, e obrigado pelos peixes! e Praticamente Inofensiva.
PS: Não ganhei um centavo furado da Livraria Cultura para fazer propaganda dos livros.
PS2: O Radiohead tem uma música em homenagem ao Marvin, Paranoid Android.

José Régio

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!