Cheguei à locadora. Parei o carro a 45º numa das vagas. Desci. Gastei pouco mais do que vinte minutos pra devolver uns filmes, escolher outros, comprar sorvete e Coca-Cola. Aí vem aquele papo de caixa:
– Deu quinte e oitenta. Qual a forma de pagamento?
– Cartão.
– Débito ou crédito?
– Débito.
– Nota Fiscal Paulista?
– Por favor.
– Prontinho, obrigado.
– Eu que agradeço.
Depois da conversa padrão que sai tão automaticamente quanto dar a descarga do banheiro, saí equilibrando as coisas pra não derrubar nada, quando me deparo com um garoto, aparentemente com síndrome de down, esmurrando meu carro. “Ei”, gritei instintivamente, andando rápido na direção dele.
Ele estava vermelho, (me) xingando de palavrões que eu não ouvia desde os tempos de escola. Será que parei onde não devia? Mas é um estacionamento, pombas! Será que atropelei o gato dele? Matei um cachorro? Um papagaio? Olhei em volta do carro. Nada. Um amigo imaginário, talvez?
Dei umas espiadas ao redor, procurando o responsável, pai, mãe, qualquer um que pudesse acalmá-lo. Ele não parava de gritar. Não tinha ninguém. Impossível que o garoto estivesse ali sozinho. Estava.
“Que merda”, falei. O menino não tava afim de papo. Pedi licença, do tipo, “com licença você que já ofendeu até a quarta geração da minha família, será que posso entrar no carro?”.
Entrei. Dei marcha à ré e fui embora. Pelo retrovisor ainda deu pra ver alguns gestos nada simpáticos da parte dele.
Tenso.