Tá todo mundo falando nos ‘róits’ do petróleo. Na TV — muito mais nos canais da Globosat do que nas outras emissoras — só se fala no tal do petróleo a centenas de quilômetros da costa brasileira, no fundo do oceano, embaixo de uma camada imensa de sal, que um dia vai trazer paz e prosperidade a este país de esperançosos miseráveis.
Dizem que isso vai render muita grana. Os jornais fazem estimativas e infográficos ultra-coloridos mostrando quanto dinheiro cada estado e cidade tupiniquim vai receber. Mas são apenas projeções. Ninguém ao certo sabe como (e quando) a Petrobras vai conseguir extrair o ouro negro que se esconde infortunadamente num lugar onde ninguém jamais conseguiu tirar nada.
Mas é claro que isso já é motivo pra uma boa briga. O Rio de Janeiro, ex-capital do Brasil, ex-capital cultural do Brasil, ex-capital econômica do Brasil, ex-muitas-outras-coisas e hoje império do governador Sérgio Cabral (e do crime organizado), se julga no direito de ter uma parcela maior na arrecadação dos royalties. A justificativa é que eles precisam custear Olimpíadas e Copa do Mundo, mesmo que já estejam recebendo uma bolada (contada na casa de centenas de milhões de reais) do Governo Federal.
Então vemos emergir na massa um fenômeno tipicamente brasileiro: uma revolta coletiva sem fundamento e sem qualquer tipo de esclarecimento ou justificativa. Funkeiros, mulheres-fruta, artistas globais, cantores, ex-BBBs, jogadores de futebol e pseudo-celebridades de internet se juntam ao coro dos milhares de assalariados cariocas gritando “a-ha, u-hu, o petróleo é nosso!”. E o que torna o discurso da Xuxa e companhia limitada estúpido e imbecil é justamente a pontualidade. Por que só mediante essa suposta barbárie a classe artística resolveu se manifestar? Não me lembro de ter visto nenhum jogador de futebol ou cantor (com exceção do Tico Santa Cruz), que poderiam usar do seu poder de influência, mobilizando nenhum protesto contra o Sarney ou Arruda, por exemplo. Por que só agora o ufanismo carioca aflorou?
A distribuição igualitária dos royalties entre todos os 26 estados-membro desta nação parece cada vez mais utópica e deturpada graças ao apelo coletivo fluminense. Ou seja, o caboclo que berra, chora, vibra a cada pseudo-vitória do Rio no Congressso é o mesmo que vai assistir às Olimpíadas em uma TV de 20 polegadas com chuviscos, na laje de um barraco, ao som de um bom samba enquanto o churrasquinho de gato estala na grelha.
Mas quem liga? É nóis nos róits.