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A TV Cultura exibe amanhã à noite o filme A Estrela Perdida, que conta a história imigração norte-americana para o Brasil no período pós-guerra civil, bem como os núcleos que se instalaram por aqui, principalmente o de Santa Bárbara d’Oeste (SP), que abriga a maior colônia americana do mundo.

Tentei copiar o embed do vídeo pra cá, mas não deu, então você consegue ver o vídeo aqui.

Agradecimentos a Yohana pelo achado : )

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Há um ano atrás publiquei um texto no meu falecido blog sobre a 23ª Festa dos Confederados, que homenageia e relembra a emigração norte-americana para o Brasil no final do século XIX e início do século XX. Este ano, seguindo o calendário cultural de Santa Bárbara d’Oeste, a festa aconteceu novamente. Como não fui ao evento e aparentemente não aconteceu nada de novo, republico o texto abaixo, com informações extra de uma reportagem do G1.

Como tudo começou

Após o final da Guerra de Secessão (ou, Guerra Civil Americana), os confederados sulistas se encontraram em uma situação extremamente difícil. Boa parte do sul agrícola dos Estados Unidos estava totalmente destruído pela guerra, a população arrasada e sem nenhuma perspectiva de vida em território americano.

Imagem: Wikipédia

Foi quando receberam a notícia que o Governo brasileiro estava dando incentivos para quem dominasse a cultura de algodão se instalar no Brasil – e o sul dos EUA era o maior exportador de algodão do mundo, na época. Dito e feito. A partir daí, estima-se que 20 mil confederados americanos venderam suas terras e vieram tentar a vida em solo tupiniquim. Os decendentes americanos no Brasil somam hoje cerca de 50 mil pessoas.

As companhias de emigração

Antes mesmo do fim da Guerra em 1865, os americanos sulistas já cogitavam a possibilidade de emigrar para o Brasil, porém, pouco ou nada se sabia, até então, sobre o país. Quando a guerra chegou ao fim, essa necessidade tornou-se urgente. Em novembro de 1865, o Estado da Carolina do Sul formou uma sociedade de colonização e mandou ao Brasil o major Robert Meriwether e o doutor H. A. Shaw, além de outros, para verificar a possibilidade de se estabelecer uma colônia. Quando voltaram, publicaram livros explicando detalhadamente como era o clima, as terras e as facilidades oferecidas pelo Governo Brasileiro para que eles se estabelecessem aqui, o mais conhecido é o “Hunting a Home in Brazil”, publicado pelo Dr. James Fadden Gaston, também da Carolina do Sul, que viajou intensamente pela província de São Paulo.

O Núcleo de Santa Bárbara

Em 27 de dezembro de 1865, o Coronel e senador William Hutchinson Norris, do Alabama, desembarcou no porto do Rio de Janeiro. Em 1866, William e seu filho Robert Norris subiram a serra do mar, pararam em São Paulo e especularam terras. Foram-lhes oferecidas de graça terras onde hoje é o bairro do Brás e na região que hoje compreende a cidade de São Caetano do Sul, no entando, por ser um terreno de brejo ele não aceitou. A partir daí, tomou a estrada de ferro que seguia rumo a Vila de São Carlos, hoje, Campinas e rumaram até a região que hoje é a atual Piracicaba.

Fixaram-se, então às margens do Ribeirão Quilombo, na antiga Santa Bárbara d’Oeste (hoje, cidade de Americana) e ali começaram a se desenvolver. O Coronel Norris passou a ministrar cursos práticos de agricultura aos fazendeiros da região, interessados no cultivo do algodão e nas novas técnicas agrícolas. O arado que ele trouxe dos Estados Unidos causou tanta sensação e curiosidade que, em pouco tempo, já tinham uma escola prática de agricultura, com muitos alunos que lhe pagavam pelo privilégio de aprender e ainda cultivar suas roças.

Imagem: Wikipédia

Devido às inúmeras propriedades agrícolas fundadas pelos norte-americanos e o intenso comércio que se desenvolveu em função disso, em 1875 a Companhia Paulista de Estrada de Ferro, instalou a Estação Santa Bárbara, que hoje é um Centro de Cultura, mantido pela Fundação Romi, que no passado construiu o primeiro carro nacional, também em Santa Bárbara d’Oeste, mas isso é assunto pra outro post.

Educação e Cultura

A educação das crianças era uma das principais prioridades das famílias americanas, que traziam professores dos EUA para que pudessem ministrar as aulas aos moldes do sistema de ensino americano. O método se mostrou tão eficaz que, posteriormente, foi adotado pelo Brasil sistema de ensino oficial brasileiro. O modelo de educação deu origem a escolas americanas até hoje em atividade no país, como a Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep), a Universidade Presbiteriana Mackenzie, na capital, e o Benedict, no Rio, entre outras. Isso sem falar nos descendentes renomados, como a cantora Rita Lee e a ministra do Supremo Ellen Gracie Northfleet.

Religião

Como todos sabem, os americanos eram protestantes. Os cultos religiosos eram celebrados nas propriedades das famílias por pastores que se deselocavam em vários núcleos de imigração americana. Em 1895 foi fundada a Igreja Presbiteriana no povoado da Estação Ferroviária.

Imagem: Felipe Attílio

Os cemitérios administrados pela Igreja Católica não admitiam que os emigrantes e pessoas de outros credos lá fossem enterrados, por isso, os americanos começaram a enterrar seus mortos próximo à sede da fazenda. O cemitério ficou conhecido como Cemitério do Campo e, popularmente, como Cemitério dos Americanos.

Imagem: Felipe Attílio

Imagem: Felipe Attílio

Imagem: Felipe Attílio

A Festa dos Confederados

Festa dos Confederados completou em 2010 sua 24ª edição. Nela é possível ver homens trajando uniforme cinza, botas e chapéus dançando com mulheres vestidas à Scarlett O’Hara, vivida por Vivien Leigh no filme …E o Vento Levou (clássico que se passa durante a guerra). Todo o cenário remete a uma típica festa do sul dos Estados Unidos, não estivessem os personagens a apenas 130 quilômetros da capital paulista.

Imagem: Felipe Attílio

Barracas vendem frango empanado, hamburgeres e milho cozido. Bandas tocam jazz, dixie land, country tradicional e folk americano. Por todo lado se vê a bandeira Dixie, o símbolo dos estados rebeldes. Os decendentes se mobilizam em massa, se vestem a caráter, estampam bandeiras americanas por todo lado e trabalham de graça nas barracas de comida e bebida.

Imagem: Felipe Attílio

E lá, todos – ou quase todos – falam inglês. Como as barracas são mantidas pela Loja Maçônica e Rotary Club, os decendentes trabalham de graça pra promover a festa, e ninguém estranha se você pedir tudo em inglês; mesmo que você peça em português, é muito comum ouvir um thank you, man como resposta.

Caso você queira tirar uma foto com um dos “soldados” vestidos como se estivessem num campo de batalha, precisa se virar pra entender o inglês com sotaque sulista carregado.

Imagem: Felipe Attílio

Imagem: Felipe Attílio

Imagem: Felipe Attílio

Imagem: Felipe Attílio

Imagem: G1

Nowadays

Hoje em dia, a história é lembrada pelos barbarenses em festas e eventos promovidos pelo Rotary Club, Loja Maçônica e Fundação Romi. Mas não é só da cultura das terras do Tio Sam que a história de Santa Bárbara vive – a imigração italiana também é presença marcante em eventos culturais e sociais realizados na cidade, como o famoso Circolo Italiano, que acontece periodicamente com muita música, comida, danças, folclore e cultura italiana.

Boa parte desta história está exposta no Museu da Imigração, em Santa Bárbara d’Oeste, que tem no acervo desde documentos históricos até as primeiras máquinas para o arado trazidas pelos americanos e utensílios domésticos considerados modernos para os padrões do império brasileiro, como moedores de café.

Imagem: Felipe Attílio